Aquilo que o coração guarda, a vida revela

Há uma imagem muito simples utilizada por Jesus no Evangelho, mas que carrega uma profundidade enorme: uma árvore é conhecida pelos frutos que produz. Não se colhem figos dos espinheiros, nem uvas de uma planta que não pode oferecê-las. E, depois de falar das árvores, Jesus desloca a comparação para o coração humano: o homem bom retira o bem do bom tesouro de seu coração, enquanto aquele que guarda o mal termina por manifestá-lo.

São Cirilo de Alexandria, ao comentar essa passagem do Evangelho de São Lucas, chama nossa atenção para uma realidade que muitas vezes preferimos ignorar: aquilo que está escondido dentro de nós, cedo ou tarde, encontra uma maneira de aparecer.

Podemos controlar palavras por algum tempo. Podemos cuidar da imagem que transmitimos aos outros. Podemos até construir uma aparência de serenidade, bondade ou virtude. Mas é muito difícil esconder permanentemente aquilo que alimentamos no coração.

É nesse sentido que São Cirilo utiliza uma expressão particularmente forte. O mal que permanece escondido acaba, em algum momento, revelando sua “impureza secreta”. A imagem pode parecer dura, mas talvez justamente por isso seja tão atual.

Jesus não está preocupado apenas com aquilo que fazemos diante dos outros. Ele nos convida a olhar para aquilo que estamos acumulando dentro de nós.

Que espécie de tesouro estamos formando no coração?

Essa talvez seja a pergunta central dessa passagem.

O coração também precisa ser cultivado

Normalmente prestamos muita atenção às nossas ações. Sabemos que determinadas atitudes são certas ou erradas. Tentamos controlar palavras, comportamentos e decisões.

Mas a vida cristã vai além do comportamento exterior.

Antes do fruto existe uma árvore. Antes da palavra existe um pensamento. Antes da atitude existe uma disposição interior.

Uma palavra agressiva raramente nasce naquele exato momento. Muitas vezes ela foi precedida por ressentimentos cultivados em silêncio. Uma atitude de inveja pode ter sido alimentada durante meses pela comparação constante com outras pessoas. Um julgamento duro pode nascer de preconceitos que nunca tivemos coragem de enfrentar.

Da mesma maneira, a bondade também possui raízes.

A paciência demonstrada em uma situação difícil costuma ser fruto de muitas pequenas escolhas anteriores. A capacidade de perdoar não surge magicamente no momento da ofensa. Ela é preparada por uma vida que aprende, pouco a pouco, a reconhecer a própria fragilidade e a misericórdia recebida de Deus.

O coração, portanto, não é um espaço neutro.

Ele é um terreno que cultivamos diariamente.

Aquilo que alimentamos cresce

Nossa época nos coloca diante de uma quantidade enorme de estímulos. Notícias, opiniões, discussões, vídeos, comentários e redes sociais disputam permanentemente nossa atenção.

Talvez nunca tenha sido tão importante perguntar:

O que estou permitindo entrar no meu coração?

Se passamos grande parte do tempo alimentando indignação, dificilmente produziremos serenidade.

Se alimentamos constantemente comparações, provavelmente colheremos insatisfação.

Se cultivamos suspeita em relação a todos, acabaremos encontrando motivos para desconfiar até daqueles que nos querem bem.

Mas o contrário também é verdadeiro.

Quando alimentamos o coração com a Palavra de Deus, com a oração, com boas conversas, com silêncio, com gratidão e com gestos concretos de caridade, algo lentamente começa a mudar dentro de nós.

Talvez não percebamos imediatamente.

A árvore também não produz frutos no dia seguinte ao plantio.

Existe um tempo de crescimento.

A boca revela o coração

Jesus encerra essa reflexão mostrando um dos lugares onde nosso interior se torna particularmente visível: nossas palavras.

Falamos daquilo que ocupa o coração.

Por isso, talvez uma boa forma de exame de consciência seja observar aquilo sobre o que falamos com maior frequência e, principalmente, como falamos das outras pessoas quando elas não estão presentes.

Nossas conversas revelam muito.

Há pessoas que parecem sempre encontrar algum motivo para elogiar, agradecer ou encorajar. Outras parecem encontrar defeitos em praticamente tudo.

Não significa que o cristão precise ignorar problemas ou fingir que tudo está bem. A verdade também exige que reconheçamos erros e injustiças.

A questão é outra.

Existe diferença entre reconhecer o mal para corrigi-lo e alimentar-se dele.

São Cirilo parece nos advertir justamente contra a ilusão de que podemos carregar continuamente determinadas coisas no coração sem que elas produzam consequências.

Em algum momento, o interior transborda.

Não basta cuidar dos frutos

É possível tentar corrigir apenas os frutos.

“Preciso falar menos.”

“Preciso controlar meu temperamento.”

“Preciso parar de julgar.”

São decisões importantes, mas Jesus nos convida a ir um pouco mais fundo.

Talvez seja necessário perguntar de onde esses frutos estão vindo.

Por que determinada pessoa desperta tanta irritação em mim?

Por que determinada situação provoca tanta inveja?

Por que preciso tanto da aprovação dos outros?

Por que tenho dificuldade de me alegrar com o sucesso de alguém?

Essas perguntas não são agradáveis, mas podem se transformar em oração.

Porque Cristo não nos mostra nosso coração simplesmente para nos acusar. Ele o revela para poder transformá-lo.

O bom tesouro

A passagem termina, portanto, não como uma condenação, mas como um convite.

É possível formar um bom tesouro dentro de nós.

Cada oração feita quando ninguém está olhando participa desse tesouro.

Cada perdão oferecido.

Cada vez que escolhemos não alimentar uma fofoca.

Cada gesto de paciência.

Cada visita a alguém que sofre.

Cada momento em que preferimos compreender antes de julgar.

Cada Eucaristia recebida com fé.

Pouco a pouco, Deus vai trabalhando esse terreno interior.

E então acontece algo bonito.

A bondade deixa de ser apenas uma obrigação e começa a se tornar espontânea. A misericórdia começa a aparecer nas palavras. A paciência começa a surgir nas situações difíceis. A caridade começa a se manifestar quase naturalmente.

São os frutos revelando a árvore.

No fim, talvez a pergunta que o Evangelho nos proponha seja muito simples:

Se aquilo que hoje está guardado dentro do meu coração transbordasse completamente, que frutos apareciam?

É uma pergunta exigente.

Mas também é uma oportunidade.

Porque, enquanto caminhamos, ainda podemos escolher aquilo que desejamos cultivar.

E Cristo continua disposto a transformar nosso coração em um bom tesouro, do qual possa nascer aquilo que verdadeiramente vale a pena oferecer ao mundo.